Salário de um CEO equivale ao de 670 operários, diz relatório do IPS

Em setembro deste ano, trabalhadores do setor automobilístico entraram em greve nos EUA. Até aí, nada de muito novo, visto que greves nesse setor já ocorreram inúmeras vezes antes. Contudo, um dos argumentos usados pelos grevistas — que buscam melhores salários — chamou a atenção da mídia estadunidense: a diferença entre os ganhos dos diretores dessas empresas e o salário dos operários.

Desde o ano de 1978, os salários dos executivos cresceram 1.322%, segundo o Instituto de Pesquisas Econômica. A título de comparação, o mercado de ações das bolsas de NYSE e Nasdaq cresceu bem menos nesse período: 817%. Na montadoras, isso fez com que esses cargos ganhassem até 322 vezes mais do que ganham os operários.

O salário anual da CEO da GM, Mary Barra, é equivalente a um prêmio de loteria no Brasil: US$ 29 milhões, cerca de R$ 144,7 milhões. O salário anual de um operário nessa empresa é em média de pouco mais de US$ 90 mil anuais.

Esses números chamam a atenção por vários motivos, entre eles o custo que os executivos têm para as empresas. É comum que quando precisam reduzir gastos, as companhias demitam centenas de funcionários, mas essas demissões poderiam ser evitadas apenas reduzindo os altos salários de quem está no topo, o que dificilmente ocorrerá, uma vez que a decisão pelas demissões é feita justamente por essas lideranças.

Empresas focando apenas no curto-prazo incentivam fraudes

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Os salários tão elevados dos CEOs ainda podem afetar as finanças da empresa de outras formas, uma delas é a motivação para se trabalhar. Se um profissional sente que seu esforço não é recompensado, ele tende a se dedicar menos, o que impacta na produtividade do negócio.

A forma como os executivos são remunerados ainda pode incentivar a fraude. Muitos CEOs são bonificados de acordo com o crescimento das ações da empresa, em alguns casos se tornando acionistas.

Dessa forma, pode ser altamente vantajoso para eles mascararem resultados negativos, evitando que as ações caiam e eles percam dinheiro. Uma reportagem do jornal Valor Econômico revela que o salário do CEO das Lojas Americanas era 400 vezes maior do que o salário-médio dos funcionários. Recentemente, a empresa revelou uma grande falha em sua governança, que causou a demissão de 10 mil pessoas e o prejuízo para muitos investidores que acreditaram nos resultados que a companhia divulgava.

Diferença salarial aumentou muito na pandemia

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Um relatório do Institute for Policy Studies (IPS) mostrou que o salário dos CEOs aumentou 31% em 2020, fazendo com esse ganho equivalesse a até 670 salários de trabalhadores da mesma companhia.

Na prática, isso significou que alguns poucos executivos ganharam um aumento de US$ 2,5 milhões, enquanto milhares de trabalhadores tiveram um aumento médio de US$ 3,5 mil em seus salários-anuais.

Segundo o relatório, uma tática usada por esses negócios para aumentarem os ganhos dos seus diretores foi a de recomprar suas próprias ações, aumentando seu poder de decisão na companhia. Bilhões de dólares foram gastos nessa estratégia, o que fez com que a Casa Branca estudasse mudar as regras que permitem a recompra de ações no mercado dos EUA.